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"Estas vagas não darão conta de toda a demanda"
Professora Doutora Ana Flávia D'Oliveira*, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Sâo Paulo (FMUSP) analisa os desafios do teleatendimento para mulheres vítimas de violência: exclusão digital, vagas e rede SUS (Sistema Único de Saúde)


Considerando que a violência atinge desproporcionalmente mulheres negras, de baixa renda e com menor escolaridade, o modelo de atendimento via aplicativo e dependente de conectividade corre o risco de excluir justamente o grupo mais vulnerável, repetindo um padrão de desigualdade no acesso às políticas públicas?
O modelo de atendimento via aplicativo pode ser uma vantagem para algumas mulheres, em termos de facilitar o acesso, mas tem também pontos negativos. O primeiro é o que a pergunta discute, ou seja, as mulheres que estão em situações mais vulneráveis, como moradoras de rua, pessoas sem acesso à Internet, ou com escolaridade muito baixa, terão mais dificuldade para acessar. Outro ponto importante a se pensar é sobre a privacidade e o sigilo. Algumas casas ou locais de trabalho não contam com estrutura para garantia de privacidade enquanto falamos ao celular.
O programa prevê 100 mil vagas mensais no país, divididas entre dois públicos complexos (vítimas de violência e mães atípicas). Diante do alto índice de subnotificação da violência psicológica e doméstica no Brasil, como avaliar o impacto real desse volume de vagas? Ele tem força estrutural ou corre o risco de ser paliativo?
Estas vagas não darão conta de toda a demanda, mas podem compor uma política, com outras possibilidades e serviços. O atendimento psicológico não é o único recurso e sozinho não poderá dar resposta a todos os problemas das mulheres em situação de violência. Acho que o crítico aqui será quais serão os critérios de encaminhamento, para que estas 100 mil vagas atinjam as mulheres que mais precisam. Daí, a partir da experiência, estas vagas provavelmente precisarão ser aumentadas. Em trabalhos como este, a duração do seguimento também é chave.
"Estas vagas não darão conta de toda a demanda, mas podem compor uma política, com outras possibilidades e serviços."
Para que um teleatendimento não seja apenas uma contenção momentânea de crise, como esse serviço virtual precisaria estar amarrado à rede física de proteção territorial - Atenção Primária, CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e rede de assistência - para garantir não só a saúde mental, mas a segurança física dessas mulheres a médio prazo?
Este serviço virtual pode funcionar como uma primeira avaliação que possa compor com a mulher um plano de cuidado, envolvendo os serviços da rede que vocês elencam e outros. O problema é que, atualmente, ao menos em São Paulo, temos muita dificuldade de fornecer psicoterapia na rede de UBS (Unidade Básica de Saúde) e os CAPS são serviços para alguns destes casos, que têm sofrimento mental grave e persistentes, não para todas as mulheres que vivem situação de violência. A psicoterapia é um recurso, mas nem todas as mulheres precisarão ou terão adesão. É importante o cuidado integral e a psicoterapia precisa, nestes casos, ser integrada em um projeto assistencial comum, que pode conter assistência jurídica, ações de segurança pública, serviço social, educação, moradia, educação e trabalho, entre outros. A Lei Maria da Penha e o SUS (Sistema Único de Saúde) precisam de valorização, financiamento, monitoramento e avaliação para que as mulheres possam ter seus direitos garantidos em nosso país.
* Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1986), Mestrado pela Universidade de São Paulo (1996), Doutorado pela Universidade de São Paulo (2000) e Pós-Doutorado na London School of Hygiene and Tropical Medicine (2009). Supervisora da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva e Atenção Primária (FMUSP). Coordenadora do grupo de pesquisa e intervenção no projeto: Fortalecendo o cuidado à violência contra a mulher nas ações de saúde sexual e reprodutiva da atenção primária em São Paulo, desenvolvido pela FMUSP. Orientadora de mestrados e doutorados desde 2004. Membro do grupo técnico de saúde e gênero da ABRASCO. Membro do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos - CEPH, vinculado à comissão de Pesquisa FFLCH-USP. Coordenadora da Liga Multidisciplinar de Violência, Gênero e Saúde (FMUSP). Editora Assistente do periódico Interface-Comunicação, Saúde, Educação. Atualmente é docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, lidando principalmente nos seguintes temas: violência de gênero, serviços de saúde da mulher e atenção primária.
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