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Monstro - A História de Lizzie Borden: o viés de gênero no banco dos réus
Uma mulher rica e bem comportada é acusada de matar o pai e a madrasta a machadadas. No tribunal, o embate se afasta das provas físicas e mergulha em uma questão central: um júri composto inteiramente por homens consegue acreditar que uma "dama" seria capaz de tanta violência? A quarta temporada da antologia “Monstro”, da Netflix, coloca o sistema de justiça sob os holofotes — e questiona como o machismo institucional pode, ironicamente, ditar quem a lei escolhe punir ou proteger.


O mito da "feminilidade" no tribunal
Criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, a nova temporada de “Monstro” desloca seu foco dos notórios assassinos das temporadas anteriores (como Jeffrey Dahmer e os irmãos Menendez) para mergulhar na psique de Lizzie Borden (Ella Beatty). O caso histórico de 1892 é recontado para evidenciar uma falha monumental no sistema de justiça da época: o julgamento guiado por arquétipos de gênero. A investigação criminal e o processo rapidamente se transformam em um teatro de moralidade. A promotoria tenta convencer os jurados de que uma professora de escola dominical possuiria a força física e a “depravação” mental para cometer um crime tão brutal. A série escancara como as estruturas legais operam com base na construção do que é esperado de uma mulher. Ao exigir que a acusada se encaixe no papel passivo e dócil, a Justiça muitas vezes se cega para as evidências materiais, transformando o tribunal em um palco de estereótipos.
A “raiva feminina” sob a ótica do abuso
A personagem de Lizzie carrega o peso de um ambiente doméstico sufocante. A série não a isenta da brutalidade, mas contextualiza a tragédia ao apresentar a figura tirânica e controladora de seu pai, Andrew Borden (Charlie Hunnam). É justamente aí que a série encontra um de seus temas mais urgentes: a negligência histórica do Direito em relação à violência psicológica, patrimonial e ao controle coercitivo dentro de casa. A narrativa nos coloca diante de um cenário onde, muito antes da existência de mecanismos legais de proteção à mulher, o desamparo institucional em lares abusivos criava panelas de pressão emocionais. A série convida o público a refletir sobre a raiva feminina reprimida e o que acontece quando o Estado não oferece nenhuma via de escape ou proteção para mulheres reféns de estruturas patriarcais.
Classe, poder e interseccionalidade
A dinâmica no banco dos réus ganha ainda mais complexidade quando a série explora a relação entre Lizzie e a empregada irlandesa da família, Bridget Sullivan (Vicky Krieps). Enquanto Lizzie é escudada pelo seu status de herdeira branca e rica, Bridget representa a vulnerabilidade no sistema legal. Esse contraste é fundamental para a narrativa: a série deixa nas entrelinhas uma crítica voraz sobre quem a Justiça enxerga como culpada por padrão. O conflito silencioso entre as duas expõe como a classe social e a origem ditam as regras do jogo. A condução do caso evidencia que o sistema penal, muitas vezes, não está preocupado em encontrar a verdade, mas em preservar a imagem da elite e a ordem social.
A dissonância sonora da repressão
Para acentuar o contraste entre a rigidez moral do final do século XIX e a efervescência mental da protagonista, a direção aposta em escolhas anacrônicas e viscerais na trilha sonora. A inserção do rock psicodélico do The Doors em meio aos espartilhos e rituais conservadores funciona não apenas como um recurso estético, mas como a manifestação audível da raiva de Lizzie. Em contraponto, o uso do hino synth-pop "Smalltown Boy", do Bronski Beat, adiciona uma camada profunda sobre alienação, solidão e desejos sufocados por uma cidade e uma família opressoras — flertando de forma brilhante com a tensão entre a protagonista e a empregada Bridget. Juntas, essas faixas quebram a expectativa de uma produção de época tradicional, traduzindo perfeitamente o momento em que o verniz da submissão feminina racha e o ambiente doméstico entra em colapso.
Lei, estereótipos e o julgamento
Para o público do Elas na Lei, talvez o aspecto mais interessante de “Monstro: A História de Lizzie Borden” seja a forma como o viés machista é operado de maneira invertida pela defesa. Ao contrário de obras que mostram a condenação de mulheres pela quebra de expectativas de gênero, aqui vemos argumentos patriarcais sendo usados na tentativa de blindar a ré pelos motivos mais misóginos possíveis — a crença na inferioridade, falta de agência e fragilidade feminina. A série não oferece respostas fáceis sobre a culpa de Lizzie, mas ilustra perfeitamente como tribunais falham quando substituem fatos por preconceitos morais. A Justiça institucional representada no julgamento é desenhada para proteger o próprio sistema, resistindo a admitir que o modelo de família tradicional pudesse abrigar tamanha brutalidade.
Uma pergunta incômoda
A temporada funciona como uma radiografia do machismo estrutural no Direito. É a denúncia de um sistema que não sabe lidar com a agência e a complexidade da violência feminina. Mas a série deixa uma questão particularmente incômoda: se o viés de gênero e a classe social ditaram os rumos do julgamento de Lizzie Borden, o que teria acontecido se a principal suspeita fosse Bridget Sullivan, a imigrante pobre e sem poder de influência? A resposta nos força a encarar que a balança da Justiça, muitas vezes, não pesa os fatos, mas sim o valor social de quem senta no banco dos réus. É nesse desconforto que a série ultrapassa o rótulo de true crime para se tornar um espelho das falhas estruturais das instituições.
A quarta temporada de “Monstro” estreou na Netflix em 17 de setembro de 2026.

FICHA TÉCNICA: MONSTRO: A HISTÓRIA DE LIZZIE BORDEN
Título Original: Monster: The Lizzie Borden Story
Título Nacional: Monstro: A História de Lizzie Borden
Produção: Ryan Murphy Productions
Formato: Série Antológica
Direção: Max Winkler e Sarah Adina Smith
Elenco: Ella Beatty como Lizzie Borden, Charlie Hunnam como Andrew Borden (pai de Lizzie), Rebecca Hall como Abby Borden (madrasta), Vicky Krieps como Bridget Sullivan (a empregada da família)., Billie Lourd como Emma Borden (irmã mais velha), Jessica Barden como Nance O'Neill (atriz e amiga de Lizzie), Joey Pollari como John Morse (tio materno), Sarah Paulson em participação como a serial killer Aileen Wuornos.
Temporada: 4ª temporada
Produção Executiva: Ryan Murphy, Ian Brennan, Alexis Martin Woodall
Estreia no Brasil: 17 de setembro de 2026
Criação: Ryan Murphy e Ian Brennan
Gênero: Terror psicológico, drama, suspense
Classificação Indicativa: 18 (violência extrema, abuso psicológico e temas sensíveis).
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