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Feminicídio no DF: 46% das vítimas já tinham medida protetiva

Relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revela falhas do poder público para combater mortes na capital federal. Foto: Rodrigo Viana/Senado Federal

8/8/20263 min read

Brasília falha com as mulheres.

A capital da República abriga o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF), os ministérios, os tribunais superiores e os principais centros de formulação de políticas públicas do país. É de Brasília que partem as leis, os discursos e as campanhas que prometem proteger as mulheres brasileiras.

Mas os números mais recentes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelam uma realidade inquietante: justamente na capital do Brasil, a proteção estatal continua deixando perguntas sem resposta.

Segundo o CNJ, 46% das vítimas de feminicídio ou tentativa de feminicídio no Distrito Federal já possuíam medida protetiva contra o mesmo agressor. Trata-se do terceiro maior percentual do país. Em segundo lugar está Mato Grosso, com 50%. Em primeiro, Amapá, com 65%.

O dado é devastador.

Significa que, em quase metade dos casos analisados, a mulher já havia pedido ajuda.

Ela já havia denunciado.

Ela já havia recorrido ao Estado.

Ela já havia sido reconhecida como vítima.

E, ainda assim, a violência avançou.

O relatório mostra que o TJDFT aprecia os pedidos de medida protetiva com rapidez. Em 96% dos casos, a decisão é tomada em até dois dias.

Mas a rapidez da resposta judicial não elimina uma pergunta dolorosa:

De que adianta a proteção no papel quando a vida continua em risco?

Os dados ganham contornos ainda mais preocupantes quando observados em perspectiva histórica.

Em 2022, levantamento baseado em dados do DataJud e analisado pela pesquisadora Rosely Pires, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), apontou que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios possuía o maior índice de indeferimento de medidas protetivas do país: 15,79% dos pedidos eram negados.

Naquele momento, a preocupação era o acesso das mulheres à proteção judicial.

Quatro anos depois, a inquietação permanece.

Hoje, os números indicam que as medidas são concedidas com rapidez. Porém, os feminicídios mostram que a concessão da medida não encerra necessariamente o ciclo de violência.

A leitura crítica desses dados revela uma trajetória preocupante.

Primeiro, mulheres enfrentavam dificuldades para obter proteção.

Agora, mesmo quando conseguem a proteção judicial, muitas continuam expostas a riscos extremos.

É impossível ignorar a dimensão simbólica desse cenário.

O Distrito Federal não é apenas mais uma unidade da federação. É a sede dos Poderes da República. É o local onde se discutem políticas nacionais de enfrentamento à violência contra as mulheres. É onde são elaboradas leis que impactam milhões de brasileiras.

Por isso, quando Brasília aparece associada a indicadores tão preocupantes, o problema deixa de ser apenas local. Ele se transforma em um alerta nacional.

Os números também evidenciam uma lacuna de transparência.

O levantamento que revelou o elevado índice de indeferimento em 2022 não teve continuidade periódica. O país não dispõe de um monitoramento anual amplamente divulgado sobre taxas de deferimento e indeferimento de medidas protetivas por tribunal.

Isso significa que a sociedade acompanha os feminicídios, mas não acompanha com a mesma clareza um dos principais instrumentos destinados a evitá-los.

Essa realidade precisa mudar.

Assim como o Brasil divulga anualmente estatísticas de homicídios, feminicídios e violência doméstica, deveria divulgar todos os anos um relatório nacional sobre medidas protetivas de urgência, indicando quantos pedidos foram apresentados, quantos foram deferidos, quantos foram negados e quais tribunais apresentam os melhores e os piores resultados.

Porque cada medida protetiva negada é uma mulher que pode permanecer sem proteção.

E cada feminicídio ocorrido após a concessão de uma medida protetiva é um lembrete doloroso de que o desafio não termina quando a decisão judicial é assinada.

Na capital do país, onde se concentram as instituições encarregadas de garantir direitos, os números do CNJ deixam uma pergunta impossível de ignorar: se as mulheres não estão seguras em Brasília, o que isso diz sobre a proteção oferecida às mulheres brasileiras?

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