"Mamãe, e eu?"

O grito que interrompe a fuga e perpetua o ciclo. Foto: Comissão Geral sobre o Feminicídio. Dep. Carla Dickson (PL - RN). Bruno Spada / Câmara dos Deputados.

4/10/20263 min read

A maternidade, no contexto da violência doméstica, é frequentemente a corda que prende a mulher ao seu agressor e, ao mesmo tempo, o escudo que ela tenta usar para proteger o futuro. Para o sistema de justiça brasileiro, no entanto, essa tragédia é muitas vezes reduzida erroneamente a um "conflito familiar". Essa nomenclatura não é apenas um equívoco técnico; é uma forma de invisibilizar a assimetria de poder e a crueldade de um ciclo que usa o amor materno como ferramenta de tortura. Nesta semana, a Câmara dos Deputados promoveu Comissão Geral para combate ao feminicídio e o centexto materno estrou nos debates.

O "Banquinho" e o Dilema da Sobrevivência

A justiça, ao tratar a violência contra a mulher como um problema privado do lar, ignora que a decisão de ficar ou sair não é apenas emocional, mas estrutural. A Deputada Carla Dickson (PL/RN) ilustra essa realidade com uma história que revela a face mais dolorosa da dependência:

"Uma mulher, que constantemente apanhava do marido e tinha um filho pequeno, chegou para a vizinha e falou: 'Hoje eu vou embora desta casa. Não aguento mais... tu vai pegar um tamborete [um banquinho], vai colocar do lado oposto do muro, e, se ele me bater hoje, eu pulo o muro, vou embora e nunca mais volto'. Ela apanhou. Ela pegou o tamborete e, na hora em que ia pular o muro, escutou uma voz de dentro de casa: 'Mamãe, e eu?'. Ela não tinha emprego, ela não tinha para aonde ir e ela tinha uma criança. Ela simplesmente pegou o banquinho, colocou debaixo do braço e voltou para dentro de casa com o agressor."

Essa cena não descreve um "conflito". Descreve o cárcere imposto pela falta de políticas públicas e pela responsabilidade solitária do cuidado. Quando o Estado falha na empregabilidade e na segurança, ele empurra essa mãe de volta para os braços de quem a fere.

A Violência que Transborda o Lar

Reduzir o feminicídio a uma questão doméstica é ignorar que ele é um atentado contra a própria Nação. Como destacou a Deputada Maria do Rosário (PT/RS), a dignidade humana é indivisível:

"A violência contra a mulher significa a violação de direitos humanos de cada uma das vítimas e a violação de direitos humanos dos seus filhos, das suas famílias, das suas mães, das suas comunidades e da própria Nação. (...) Não é possível tratar da violência contra a mulher como algo fragmentado... as educadoras brasileiras precisam atuar pelo fim da violência, conseguindo identificar as formas pelas quais as crianças nos contam o que acontece nas suas casas, nas suas vidas, com suas mães."

O trauma de uma criança que vê a mãe ser agredida não é um "efeito colateral"; é parte de uma estratégia de dominação. Como reforçou a Deputada Ana Paula Lima (PT/SC): "Que possamos fazer esse enfrentamento conjuntamente, para que nenhuma mulher perca a vida e nenhuma criança fique sem mãe!"

Órfãos do Feminicídio: Mais que Estatísticas

Onde a justiça enxerga um "desentendimento de casal", a realidade entrega sepulturas e órfãos. A fala de Mary Cruz, Coordenadora Nacional do Elo Mulheres da Rede Sustentabilidade, ressoa como um grito de alerta sobre o vazio que fica:

"Esses números gritam, mas, infelizmente, não abraçam as famílias que ficam. As mulheres que morreram no nosso País tinham nome, tinham sonhos... Estou falando de mães, de filhos que ficam órfãos, de pessoas que sofrem por essa ausência."

A Delegada Katarina reforça que cada caso tem um rosto e uma história interrompida, citando o exemplo de seu estado:

"O feminicídio não é uma estatística. Tem famílias destruídas. Em Sergipe... o último caso ocorreu no domingo da Páscoa. Joyce Oliveira é o nome dela, mãe de dois filhos, que foi assassinada a facadas pelo companheiro porque fez escolhas. Nós, mulheres, não podemos fazer escolhas sem nos tornarmos vítimas."

A Epidemia e o Ciclo da Misoginia

Para romper o ciclo, é preciso dar nome ao problema: vivemos uma epidemia. A Deputada Fernanda Melchiona (PSOL/RS) critica a lentidão legislativa e o "congelamento" de recursos que impedem o combate direto ao ódio contra a mulher:

"Existe uma epidemia! (...) É muito importante tipificar um crime que se comete para violentar, massacrar, mutilar mulheres mães, nesse ciclo tóxico de machismo e misoginia, que resulta em feminicídios. (...) Repudio muito fortemente a decisão de não pautar o projeto sobre a criminalização da misoginia... que também é uma porta de entrada para discursos machistas que, na ponta, significam aumento do número de feminicídios."

A parlamentar destaca ainda ser "muito importante tipificar um crime que se comete para violentar, massacrar, mutilar mulheres mães, nesse ciclo tóxico de machismo e misoginia, que resulta em feminicídios".