O Poder como escudo para o assédio

Quantas mulheres já sofreram abusos em gabinetes e espaços de decisão e calaram-se por medo de represálias? O assédio cometido por homens em postos de comando utiliza o cargo como uma mordaça. No caso do ministro Marco Buzzi, a denúncia não veio de um vácuo; ela partiu de uma família que tinha proximidade com ele.

Foi esse contexto de confiança quebrada que permitiu que a denúncia ganhasse corpo e chegasse à imprensa. O vazamento das informações, embora exponha a situação de forma crua, foi o que quebrou o ciclo de invisibilidade que costuma proteger figuras desse escalão.

Punição e Transparência

Atualmente, o ministro enfrenta o afastamento de suas funções — uma punição administrativa severa e unânime dentro do STJ. As investigações no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apuram (?) não apenas os casos já expostos, mas a possibilidade de que o magistrado esteja envolvido em outras condutas inadequadas que o silêncio do poder tentou esconder.

Elas na Lei: O Fim da Era da Conivência

O Elas na Lei não está aqui para condenar antecipadamente, mas para afirmar que o tempo em que o poder servia de salvo-conduto para o abuso acabou. Esperamos. Informamos o posicionamento de homens como Marco Buzzi para que a sociedade possa confrontar o que é dito nos palcos com o que pode ser praticado nos bastidores.

A denúncia feita por uma família amiga e a exposição necessária pela imprensa mostram que a proteção aos agressores está ruindo. O mundo está melhor com mulheres que falam, com famílias que não se calam diante da autoridade e com um sistema que, finalmente, começa a punir quem confunde cargo com propriedade sobre o corpo alheio.

Nosso posicionamento

* Justiça, não cancelamento: defendemos a apuração rigorosa e o devido processo, mas acreditamos que a transparência é o único caminho para a limpeza institucional.

* Coragem de Denunciar: exaltamos a coragem das vítimas que rompem o cerco do poder.

* Vigilância Permanente: se hoje a mulher é cidadã, como diz o ministro, essa cidadania se exerce, principalmente, exigindo que a lei valha para todos — inclusive para quem a veste em forma de toga.

A "Caixa Preta" das Denúncias Ocultas

O caso do ministro Buzzi traz à tona uma realidade incômoda: a denúncia só ganhou tração porque houve um vazamento para a imprensa e envolvia um contexto de proximidade que rompeu a bolha.

Mas e as outras?

Sabemos que as denúncias de mulheres comuns, sem sobrenomes influentes ou acesso aos grandes veículos de comunicação, operam em uma verdadeira caixa preta. São processos que tramitam sob sigilo absoluto, muitas vezes paralisados pela burocracia ou pelo peso da influência do agressor no Judiciário local. Para a mulher comum, o sistema de proteção é, frequentemente, um labirinto sem saída.

Por que o mundo é melhor com mulheres (e com transparência)

O Elas na Lei acredita que o Brsil só será verdadeiramente melhor quando a justiça não depender de um vazamento na imprensa para agir. Ao trazermos o posicionamento de homens de poder, nosso objetivo não é fazer coro ao tribunal das redes sociais, mas sim exigir que a régua usada para medir a conduta de um ministro seja a mesma aplicada ao agressor da mulher comum. Que a mulher comum tenha o mesmo espaço que a mulher cuja família tem acesso ao homem de poder supostamente abusador.

Nosso posicionamento é firme

Contra o Silenciamento, o poder não pode ser um salvo-conduto. O fato de este caso ter vindo a público mostra que a rede de proteção aos abusadores está sendo desafiada, mas ainda há muito a ser aberto nessa "caixa preta".

A informação como ferramenta significa que divulgamos esses posicionamentos para que as mulheres saibam quem são as autoridades e como elas pensam. A luz do sol é o melhor para as sombras dos gabinetes.

O mundo melhora porque as mulheres pararam de aceitar o "não vai dar em nada". Seja uma servidora, uma jovem de 18 anos ou uma mãe vítima de violência vicária, cada voz que se levanta ajuda a abrir essa caixa preta.

Não estamos aqui para condenar antes da lei, mas estamos aqui para garantir que ninguém seja esquecida pelo caminho. Se a mulher hoje é cidadã, como afirma o magistrado em sua fala, que essa cidadania se traduza em segurança real e punição efetiva, independentemente do cargo de quem agride.

O Elas na Lei segue de olho. Pela transparência, pela lei e por nós.

Foto: Rafael Luz/STJ

O Elas na Lei traz uma reflexão necessária sobre o recente afastamento do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Diferente do "tribunal das redes sociais", que muitas vezes busca apenas o linchamento virtual, nossa missão é analisar os fatos e o posicionamento de homens de poder diante de temas como a violência contra a mulher. Não queremos manipular nenhuma opinião, mas sim levar as mulheres a refletir sobre estruturas do sistema. Informação é poder e pensamento crítico muda realidades.

Neste caso específico, o que vemos é um contraste profundo entre a fala pública e as graves denúncias que vieram à tona. Em evento recente, simpósio do STJ para abordar violência doméstica e justiça, o ministro ressaltou que a mulher deixou de ser uma "coisa" para se tornar "cidadã" em termos históricos. Contudo, o que as denúncias sugerem é que, dentro das estruturas de poder, a prática ainda pode estar muito distante da teoria.

Entre o discurso e a realidade: o caso Marco Buzzi e o peso do silêncio no Poder