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Mulheres na Política: porque a política brasileira ainda fala, mas continua entregando pouco poder a elas
Em 2026, dificilmente um partido deixará de falar sobre mulheres. A pergunta é outra: quantas estarão de fato nos espaços onde as decisões são tomadas? Imagem: Gemini e Chat GPT
8/2/20267 min read


As eleições de 2026 evidenciam uma mudança importante no discurso político brasileiro. Em praticamente todos os espectros ideológicos, as mulheres passaram a ocupar espaço central nas convenções partidárias, nas propagandas e nas articulações eleitorais. O combate à violência contra a mulher, a representatividade feminina e a valorização das mulheres tornaram-se temas recorrentes.
Essa mudança não ocorreu por acaso.
As pesquisas demonstram que a sociedade brasileira está profundamente preocupada com a violência contra as mulheres. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado) apontou que 79% das brasileiras acreditam que a violência aumentou no último ano. Já o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que mais de 21 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência em apenas doze meses, o maior índice da série histórica.
Os partidos entenderam a mensagem.
O voto feminino tornou-se estratégico.
Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer a importância das mulheres e compartilhar efetivamente o poder com elas.
O discurso que atravessa os partidos
No dia 2 de agosto de 2026, durante a convenção nacional do PT, realizada em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) interrompeu seu discurso para afirmar:
"Não é possível que a gente tenha esquecido do principal evento da nossa campanha, não ter colocado uma mulher para falar."
Em seguida, convidou a primeira-dama, Janja, para discursar.
Janja afirmou:
"Eu tenho muito orgulho de você ter abraçado uma causa que para nós, mulheres, já trabalhamos há tanto tempo, lutamos, sofremos, que é o combate à violência contra as mulheres."
Segundo ela, Lula teria levado essa pauta para fóruns internacionais como o G7 e o G20.
No dia 1º de agosto de 2026, durante a convenção do MDB em Belo Horizonte, o candidato ao governo de Minas Gerais, Gabriel Azevedo, anunciou:
Também em 1º de agosto de 2026, durante as negociações para a sucessão presidencial, Flávio Bolsonaro lamentou a impossibilidade de contar com a senadora Tereza Cristina como vice e declarou:
As declarações revelam um aspecto inédito da política brasileira: mulheres deixaram de ser um tema periférico para ocupar o centro das estratégias eleitorais.
Entretanto, o reconhecimento do peso político das mulheres não pode ser confundido com igualdade de poder.
Quando o discurso encontra a cultura política
A mudança de discurso, entretanto, não significa que a cultura política brasileira tenha superado antigas visões sobre o papel das mulheres.
No início de julho de 2026, durante entrevista coletiva, o presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, afirmou que "mulher arruma enguiço com 20", ao comentar dificuldades envolvendo o abandono de Michelle Bolsonaro do cargo de presidenta do PL Mulher. A declaração provocou ampla repercussão justamente porque reproduz um estereótipo historicamente utilizado para desqualificar mulheres que ocupam espaços de liderança.
Independentemente do contexto em que foi proferida, a frase revela como ainda persiste, em setores da política, a ideia de que a presença feminina representa um fator de conflito ou dificuldade, e não um elemento essencial da democracia.
Esse episódio não é isolado. Em diferentes momentos da história recente, declarações de lideranças políticas reforçaram papéis tradicionais atribuídos às mulheres.
Em 2016, ao assumir a Presidência da República, Michel Temer afirmou que sua esposa, Marcela Temer, era responsável por cuidar da casa e do filho, descrevendo-a como alguém dedicada aos afazeres domésticos. Embora a fala tenha sido apresentada como um elogio, ela foi amplamente criticada por reforçar estereótipos de gênero e reduzir a imagem feminina ao espaço privado, em contraste com a crescente participação das mulheres na vida pública.
É justamente essa contradição que marca a política brasileira. Durante as campanhas, mulheres aparecem como protagonistas dos discursos, símbolo de sensibilidade social e prioridade eleitoral. Fora do período eleitoral, porém, continuam enfrentando estereótipos, violência política, sub-representação nos espaços de poder e, em alguns casos, até mesmo sendo utilizadas para cumprir formalmente cotas de candidaturas.
Entre o discurso e a prática
No mesmo momento em que os partidos disputam o voto feminino, a Justiça Eleitoral continua enfrentando um dos principais desafios relacionados à participação das mulheres na política: garantir que as cotas de gênero sejam cumpridas de forma efetiva e não apenas formal.
A legislação eleitoral brasileira exige que partidos e federações reservem percentual mínimo de candidaturas para mulheres, como uma medida de correção histórica da baixa participação feminina nos espaços de poder. Entretanto, casos analisados pela Justiça Eleitoral mostram que ainda existem tentativas de cumprir a regra apenas no papel, por meio de candidaturas sem participação efetiva na disputa.
Um exemplo recente ocorreu no Amazonas
Em 28 de julho de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) confirmou a cassação do mandato do vereador Aluísio Isper Netto (PV), eleito em Itacoatiara (AM) nas eleições municipais de 2024. A decisão manteve o entendimento de que a chapa da Federação Brasil da Esperança utilizou candidaturas femininas apenas para cumprir formalmente a exigência da cota de gênero.
Segundo o tribunal, as provas reunidas no processo indicaram ausência de participação efetiva de algumas candidaturas femininas na disputa eleitoral. A decisão anulou os votos da federação e determinou consequências eleitorais para os envolvidos, embora ainda exista possibilidade de recurso.
O caso evidencia uma das principais preocupações dos órgãos eleitorais: quando mulheres são registradas apenas para preencher uma exigência legal, a política de inclusão criada para ampliar a presença feminina acaba sendo esvaziada.
A gravidade do problema levou o Ministério Público Eleitoral, em 2 de junho de 2026, a lançar um roteiro nacional orientando promotores de todo o país a identificar fraudes às cotas destinadas às mulheres, negros e indígenas. O documento apresenta diversos indícios, como candidaturas sem campanha efetiva, ausência de movimentação financeira, votação inexpressiva e utilização dos recursos destinados às mulheres para beneficiar outros candidatos.
Quando o próprio Ministério Público cria um protocolo nacional para combater esse tipo de fraude, fica evidente que a instrumentalização de candidaturas femininas deixou de ser um problema localizado para se tornar uma preocupação institucional em todo o país.
A contradição do poder
A incoerência não se restringe às campanhas.
Ela também aparece na ocupação dos espaços de decisão.
Embora Lula tenha defendido publicamente o protagonismo feminino durante a convenção do PT, movimentos de mulheres e organizações da sociedade civil criticaram algumas decisões do governo relacionadas à ocupação de cargos estratégicos.
O exemplo mais simbólico ocorreu em 2025, quando o presidente indicou Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal.
A escolha frustrou movimentos de mulheres, organizações do movimento negro e entidades da sociedade civil que defendiam a nomeação da primeira mulher negra da história do STF.
Não se discutia apenas um nome.
Discutia-se uma oportunidade histórica de enfrentar a sub-representação feminina e racial na mais alta Corte do país.
A crítica não significa desqualificar o indicado, mas reconhecer que discursos sobre diversidade precisam ser acompanhados por decisões concretas de distribuição de poder.
Essa reflexão, contudo, não se limita ao governo federal.
Ela alcança praticamente todo o sistema político brasileiro.
A crítica não se dirige a um único partido, governo ou liderança política. Os episódios recentes envolvendo PT, PL, MDB e outras legendas revelam um desafio estrutural: a política brasileira ainda convive com uma cultura em que as mulheres são valorizadas como eleitoras, porta-vozes e símbolos de campanha, mas permanecem sub-representadas nos espaços onde o poder é efetivamente exercido. Somados às fraudes às cotas de gênero e a declarações que reforçam estereótipos sobre a participação feminina, esses episódios indicam que o discurso político avançou mais rapidamente do que a transformação institucional.
Quando partidos anunciam mulheres para ampliar o alcance eleitoral de suas chapas, quando destacam candidatas em convenções, mas continuam apresentando baixa participação feminina nos espaços internos de decisão, ou quando fraudes às cotas de gênero persistem eleição após eleição, a pergunta torna-se inevitável:
A política brasileira está promovendo mulheres ou utilizando sua imagem?
Muito além das campanhas
As pesquisas mostram que a sociedade brasileira exige respostas para a violência contra as mulheres.
Os partidos compreenderam que essa pauta mobiliza milhões de eleitoras.
Mas compreender o peso eleitoral das mulheres não significa, necessariamente, promover igualdade.
Existe uma diferença entre falar sobre mulheres e governar com mulheres.
Existe uma diferença entre convidar mulheres para discursar e garantir que ocupem os principais espaços de decisão.
Existe uma diferença entre defender cotas de gênero e respeitar o objetivo dessas cotas, permitindo que mulheres disputem eleições de forma autônoma, com recursos, estrutura e protagonismo político.
As mulheres brasileiras não precisam apenas aparecer nas campanhas.
Precisamos participar das decisões que definem o orçamento público, as políticas de segurança, a composição dos tribunais, dos ministérios, dos governos e dos partidos.
Enquanto isso não acontecer, permanecerá uma dúvida legítima.
A pauta das mulheres representa uma transformação democrática ou tornou-se apenas mais um ativo eleitoral?
A democracia não será medida pelo número de discursos sobre mulheres durante as convenções partidárias.
Ela será medida pelo número de mulheres que efetivamente chegam aos espaços onde o poder é exercido — sem serem reduzidas a símbolos de campanha, peças de marketing ou candidatas de fachada.
A política brasileira está promovendo mulheres ou utilizando sua imagem?
Quando partidos anunciam mulheres para ampliar o alcance eleitoral de suas chapas, quando destacam candidatas em convenções, mas continuam apresentando baixa participação feminina nos espaços internos de decisão, ou quando fraudes às cotas de gênero persistem eleição após eleição, a pergunta torna-se inevitável.
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