“O discurso contra nós é de ódia: sexista, misógino e desmoralizante”
Ministra Cármen Lúcia alerta para o papel das redes sociais na violência: algoritmos exploram "sombras do ser humano" para desmoralizar mulheres. Foto: Rafael Luz/STJ
2/11/20262 min read


Com essa declaração a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia marcou sua participação no simpósio “Violência Doméstica e Justiça”, realizado em 18 de dezembro de 2025, em Brasília. O evento reuniu autoridades do Judiciário, especialistas e representantes da sociedade civil para discutir o avanço da violência contra mulheres e os desafios urgentes para enfrentá-la no Brasil.
Ministra denuncia ódio misógino e violência política contra mulheres
Durante sua fala, Cármen Lúcia alertou que a violência contra mulheres não se limita ao ambiente doméstico: ela também se manifesta de forma crescente nos espaços públicos, nas redes sociais e na política. Segundo a ministra, há um movimento preocupante de ataques direcionados às mulheres com base no preconceito e na tentativa de desmoralização.
Ela destacou que esse tipo de violência simbólica e verbal tem efeitos devastadores, atingindo não apenas mulheres que ocupam cargos públicos, mas também suas famílias e seus vínculos pessoais.
Feminicídio como barbárie cotidiana
A ministra classificou o feminicídio como um dos atos mais brutais da sociedade brasileira atual e lamentou que o tema esteja presente diariamente nos noticiários. Ela relatou que, ao ligar a televisão ainda de madrugada, as primeiras manchetes já trazem casos de assassinatos de mulheres. “Parece que todo mundo está de acordo que é preciso dar um basta, mas isso continua acontecendo. Então, não estão todos de acordo”, afirmou.
Para Cármen Lúcia, a persistência dessa violência revela que o Brasil ainda convive com uma cultura estrutural de tolerância e conivência.
Preconceito atravessa até os tribunais
Mesmo após duas décadas no STF, a ministra relatou que continua sofrendo discriminação por ser mulher. Ela lembrou que perguntas e julgamentos feitos a ministras jamais seriam dirigidos a ministros homens, evidenciando como o machismo permanece presente inclusive dentro das instituições. “Mulher não é sinônimo de violência. Nenhuma mulher é”, declarou.
A urgência de transformar a sociedade
Cármen Lúcia defendeu que o enfrentamento da violência exige mais do que leis e punições: é necessário mudar a cultura e investir em ações transformativas, especialmente na educação. Ela afirmou que o Judiciário lida com o passado — com crimes que já aconteceram — mas a prevenção é o único caminho real para impedir novos feminicídios.
A ministra também ressaltou a necessidade de produzir dados concretos e pesquisas nacionais para mapear com precisão onde e como a violência acontece, sobretudo nas periferias e entre mulheres vulneráveis.
Um recado firme: não haverá recuo
Ao final, Cármen Lúcia deixou uma mensagem de resistência e compromisso com a Constituição e com os direitos das mulheres.
“Nem morta vão me ver de braços cruzados diante das iniquidades.”
Sua fala foi recebida como um dos momentos mais impactantes do simpósio, reforçando que o combate à violência doméstica e ao ódio misógino é uma tarefa urgente de toda a sociedade brasileira.
