Mais de 1 milhão de pedidos de ajuda

Dados alarmantes do Ligue 180 revelam que abusos psicológicos lideram denúncias; especialistas apontam a urgência de proteger mães e crianças contra a violência vicária, agora tipificada na Lei Maria da Penha. Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

4/20/20263 min read

Brasília – O enfrentamento ao feminicídio no Brasil atravessa um momento de mudança profunda de paradigma. Se por décadas o foco das políticas públicas esteve quase exclusivamente na agressão física visível, hoje o Estado, a academia e os movimentos sociais convergem para um diagnóstico urgente: o crime extremo é apenas o desfecho de um ciclo contínuo que começa com abusos psicológicos e estratégias cruéis de controle emocional, como a violência vicária.

O debate ganhou força recentemente na Comissão Geral da Câmara dos Deputados. Durante a sessão, Ellen Costa, coordenadora-geral do Ligue 180 (Ministério das Mulheres), apresentou dados que escancaram essa realidade. O serviço registrou mais de 1 milhão de atendimentos em 2025 e, logo no primeiro trimestre de 2026, já ultrapassou a marca de 45 mil denúncias.

"O feminicídio não começa no momento do crime, ele começa quando a violência ainda está em um estado de invisibilidade. O maior número de registros de denúncias é de violência psicológica", alertou Ellen aos parlamentares.

O Brasil Profundo e a Invisibilidade da Dor

Os dados do Ministério das Mulheres revelam uma capilaridade impressionante do Ligue 180, mas também a fragilidade das redes de apoio locais. Cerca de 90% das denúncias registradas em 2025 vieram de municípios de pequeno porte, com até 100 mil habitantes.

Para muitas mulheres em zonas rurais, comunidades quilombolas e territórios indígenas, o telefone ou o WhatsApp do Ligue 180 são as únicas portas de entrada para o socorro.

Raio-X do Ligue 180 (Dados de 2025):

  • Atendimentos Totais: Mais de 1 milhão (via telefone, WhatsApp, Libras e e-mail).

  • Disseminação de Informação: Mais de 790 mil atendimentos focados em orientação e empoderamento.

  • Denúncias Encaminhadas: Mais de 155 mil casos enviados diretamente aos órgãos de apuração.

  • Cenário em 2026: Mais de 45 mil denúncias apenas nos primeiros três meses do ano.

Violência Vicária: Quando o Filho se Torna a Arma do Agressor

É nesse cenário de abusos psicológicos que se esconde uma das formas mais perversas de agressão: a violência vicária. O termo refere-se à violência cometida contra terceiros, via de regra os filhos, com o objetivo exclusivo de causar sofrimento e exercer controle sobre a mulher.

Doutora em Ciências Sociais e integrante do Coletivo Mães na Luta — organização que acolhe e dá suporte a mulheres vítimas desse tipo de abuso —, Vanessa Hacon explica que a violência vicária opera em uma zona cinzenta da Justiça e da psicologia.

"O agressor entende que o maior patrimônio emocional de uma mãe são seus filhos. Quando ele percebe que não pode mais controlar a mulher diretamente, ele passa a usar as crianças como instrumentos de tortura psicológica", afirma a Dra. Vanessa em entrevista ao SBT News. "Isso vai desde ameaças de tirar a guarda até a manipulação afetiva e, nos casos mais graves, agressões físicas contra os menores para punir a mãe".

O Coletivo Mães na Luta atua justamente na base, oferecendo acolhimento para mulheres que muitas vezes são desacreditadas pelas instituições quando tentam denunciar que seus filhos estão sendo usados como massa de manobra pelo ex-parceiro.

O Avanço Legislativo na Lei Maria da Penha

A boa notícia para a rede de proteção é que a legislação brasileira começou a acompanhar a complexidade desses abusos. A violência vicária foi recentemente incluída como uma das formas de violência doméstica passíveis de punição e proteção pela Lei Maria da Penha.

Essa alteração legislativa é um divisor de águas por três motivos principais:

  1. Reconhecimento do Dano Indireto: A lei agora entende que ameaçar ou maltratar o filho para atingir a mãe é, sim, violência de gênero contra a mulher.

  2. Facilitação de Medidas Protetivas: Juízes têm mais embasamento para afastar o agressor não apenas da mulher, mas também do convívio com os filhos, caso fique provado o uso das crianças para fins de tortura psicológica.

  3. Combate à Inversão de Culpa: Frequentemente, agressores usavam a Lei de Alienação Parental para acusar as mães de estarem afastando os filhos, quando na verdade elas tentavam protegê-los. A tipificação da violência vicária ajuda a equilibrar essa balança jurídica.

Um Chamado à Ação Coletiva

Para a Dra. Vanessa e as ativistas do Coletivo Mães na Luta, a lei é um passo gigantesco, mas a sociedade precisa aprender a identificar os sinais. Humilhações constantes, isolamento social, controle financeiro e ameaças envolvendo a guarda dos filhos não são "problemas de casal", são crimes.

Como bem sintetizou Ellen Costa em sua fala na Câmara dos Deputados, fortalecer canais como o Ligue 180 e dar visibilidade a essas dores "invisíveis" é a única forma de fazer com que cada denúncia se transforme, efetivamente, em proteção concreta e vidas salvas.

Precisa de ajuda? Se você está passando por uma situação de violência psicológica, vicária ou física, ou conhece alguém nessa situação, ligue 180. O serviço é gratuito, anônimo e funciona 24 horas. Você também pode buscar o apoio de coletivos especializados em sua região, como o Mães na Luta. Não se cale.