Brasília, DF · jornalismo independente * siga nosso canal no whatsapp

Acolhe Mais: quais os desafios de oferecer atendimento psicológico remoto para as brasileiras

O Elas na Lei ouviu Ana Carolina Freire Lopes, conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP); Ana Flávia Pires Lucas D’Oliveira, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Nadia de Machado Vasconcelos, pesquisadora e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Brasília, 25 de setembro de 2026

Elizete Fontes

O Governo Federal anunciou, em 24 de agosto, o Acolhe Mais, serviço gratuito de teleatendimento psicológico destinado a mulheres que vivem ou viveram situações de violência e a familiares e cuidadoras de pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras. A iniciativa prevê 100 mil teleatendimentos mensais por meio do aplicativo Meu SUS Digital.

A proposta amplia uma possibilidade de acesso à saúde mental sem a necessidade de deslocamento. Mas, até chegar ao atendimento, algumas mulheres ainda precisam superar uma série de obstáculos.

É o caso de Menedy Horsth, 40 anos, cozinheira, de Belo Horizonte (MG). A experiência dela com o Acolhe Mais começou com dificuldades justamente na etapa que deveria dar acesso ao serviço.

“A experiência foi péssima no início, porque precisa integrar o Meu SUS Digital com o Gov.br. O aplicativo do SUS manda um número de autenticação para o aplicativo do Gov.br, e eu tive muita dificuldade depois de várias tentativas”, relata.

Depois de conseguir avançar no processo, Menedy recebeu outra informação: não havia vagas disponíveis naquele momento. “Falaram que não tinha vaga, devido à grande procura”, conta.

Semanas depois, ela recebeu uma mensagem pelo WhatsApp informando que poderia agendar o atendimento. O problema, entretanto, continuou. Segundo Menedy, ela não conseguia acessar pelo aplicativo a área destinada ao agendamento. Foi então que passou a procurar diretamente o atendimento do Acolhe Mais pelo WhatsApp. Depois de algumas tentativas, conseguiu ajuda de uma atendente, que realizou o agendamento.

Menedy iniciou o cadastro em 27 de agosto e teve a primeira consulta em 15 de setembro. O link para o atendimento foi enviado cerca de uma hora antes do horário marcado. Apesar das dificuldades iniciais, a experiência mudou depois que ela conseguiu efetivamente entrar no acompanhamento. “As sessões são sempre no mesmo dia e horário e com a mesma profissional, o que ajuda bastante a me organizar”, afirma.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) avalia que o Acolhe Mais também não deve ser analisado apenas pelo número de atendimentos realizados. É necessário acompanhar quantas mulheres tentaram acessar o serviço e não conseguiram, quantas interromperam o acompanhamento, quais territórios concentram maior demanda e quais grupos estão sendo menos alcançados pela política.

No caso do Acolhe Mais, o CFP considera que relatos de dificuldades para conseguir atendimento também devem fazer parte do monitoramento da política, verificando se a capacidade anunciada corresponde ao acesso efetivamente experimentado pelas usuárias.

A distância entre oferecer e conseguir acessar

A experiência relatada por Menedy coloca em evidência uma questão que vai além da existência de uma plataforma digital: o acesso ao serviço depende também da capacidade de navegar pelo sistema, conseguir uma vaga e concluir o agendamento.

A professora e pesquisadora Ana Flávia Pires Lucas D’Oliveira, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), salienta que o formato digital pode representar uma vantagem para algumas mulheres, mas também criar novas barreiras para aquelas em situação de maior vulnerabilidade. Entre os obstáculos estão a falta de acesso à internet, a baixa escolaridade e situações em que a mulher não dispõe de privacidade em casa ou no trabalho para realizar o atendimento.

“A tecnologia pode expandir uma porta de entrada; ela não substitui uma rede de cuidado”, ressalta a psicóloga Ana Carolina Freire Lopes, representante do Conselho Federal de Psicologia (CFP) no Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Não existe uma oposição simples entre atendimento presencial e remoto. A questão central é saber qual modalidade oferece, em cada situação, condições de segurança, privacidade, sigilo, qualidade técnica, vínculo e continuidade do cuidado, analisa Ana Carolina.

A preocupação com os limites do atendimento remoto também aparece na avaliação da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O presidente da entidade, Antônio Geraldo da Silva, destaca que mulheres vítimas de violência podem apresentar situações que exigem avaliação cuidadosa de risco e articulação com outros pontos da rede.

Entre as situações que, segundo ele, precisam ser identificadas estão o risco de retraumatização, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), a depressão grave e a ideação suicida. O atendimento, afirma, exige escuta empática, ambiente protegido e condições para que a mulher consiga falar livremente sobre o que está vivendo.

Há ainda uma limitação específica do atendimento remoto quando a vítima permanece próxima do agressor. “Se a mulher estiver sob o mesmo teto do agressor, por exemplo, o atendimento remoto pode inibir a livre verbalização e expô-la à retaliação e violência”, afirma.

Segundo o presidente da ABP, o modelo virtual também não permite realizar exame físico completo em situações nas quais seja necessária a constatação de lesões nem intervir presencialmente em emergências.

O CFP reforça que ter acesso à tecnologia não significa necessariamente ter acesso ao cuidado. Uma mulher pode ter celular e conexão à internet, mas não dispor de um ambiente seguro e privado para falar, especialmente quando vive com o autor da violência ou tem seus dispositivos monitorados.

A dimensão da demanda

É importante distinguir, nesse caso, teleatendimentos de mulheres atendidas. A capacidade anunciada pelo Governo Federal se refere ao número de atendimentos realizados, e não necessariamente a 100 mil mulheres diferentes por mês. Portanto, esse número, isoladamente, não permite saber quantas usuárias únicas poderão ser acompanhadas pelo programa no período.

A professora Ana Flávia avalia que o número não será suficiente para atender toda a demanda, embora possa funcionar como parte de uma política mais ampla. Será fundamental acompanhar os critérios de encaminhamento e verificar se as vagas chegam justamente às mulheres que mais precisam do serviço. A experiência inicial também deverá indicar se será necessário ampliar a oferta.

Nádia Machado Vasconcelos, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera o Acolhe Mais um avanço importante, mas também chama atenção para a dimensão da demanda.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 analisados por Nádia, 18,58% das mulheres relataram ter sofrido violência psicológica nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as mulheres que relataram algum tipo de violência, 75% disseram ter sofrido exclusivamente violência psicológica.

A pesquisadora destaca ainda que apenas 16% das mulheres que relataram violência psicológica procuraram atendimento de saúde. Entre as que chegaram ao sistema de saúde, quase 99% dos casos não foram notificados, segundo a análise apresentada por ela.

A professora da UFMG afirma que esses dados também revelam uma dificuldade anterior ao próprio atendimento: a violência pode chegar ao serviço de saúde sem ser identificada como parte da origem do sofrimento psíquico.

“Muitas vezes existe uma medicalização da depressão. A mulher chega no posto de saúde falando que está com sintomas depressivos, e muitas vezes os profissionais vão tratar aquela depressão sem tentar entender de onde veio essa depressão”.

Segundo a professora Nádia, isso pode fazer com que a mulher receba tratamento para uma condição de saúde sem que a violência que contribuiu para aquele sofrimento seja identificada.

“A gente está acolhendo ela dentro de uma necessidade médica mas a gente ainda assim não está conseguindo captar a violência por trás disso”, diz.

O programa tem potencial, mas não deve ser tratado como uma solução isolada, defende a pesquisadora. Ela considera necessário acompanhar o Acolhe Mais com o fortalecimento do SUS, da atenção primária e de equipes multiprofissionais preparadas para identificar situações de violência e oferecer acompanhamento adequado.

Nádia também chama atenção para problemas como conectividade, acesso a celulares e privacidade, especialmente entre mulheres negras, pobres e que vivem em áreas rurais.

“A gente imagina aí que o número de mulheres que sofrem violência psicológica é na casa dos milhões. Então, talvez a gente ainda tenha que redimensionar esse atendimento”, afirma.

Psiquiatria e a capacidade da rede

Segundo Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a entidade estima a existência de aproximadamente 13,6 mil psiquiatras devidamente titulados e em atividade no Brasil. Ele ressalva que o número não indica quantos desses profissionais trabalham no SUS.

Para o presidente da ABP, o desafio está também na capacidade da rede pública de absorver os casos que exigem avaliação psiquiátrica. A entidade defende a ampliação da presença de psiquiatras no SUS, com contratação, qualificação das equipes e integração entre os diferentes níveis de assistência.

A ABP afirma que não participou da estruturação do Acolhe Mais. “A ABP nunca foi consultada para participação, apesar de sempre se mostrar disponível”, afirma Antônio Geraldo. A ausência de participação da ABP, entretanto, não permite concluir, por si só, que os protocolos do programa sejam inadequados. O ponto levantado pela entidade é que a associação não participou da construção da iniciativa e, portanto, não teve oportunidade de contribuir formalmente para seus protocolos clínicos.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) também afirmou não ter sido procurado para participar das diretrizes do Acolhe Mais e declarou estar à disposição para contribuir na construção de políticas públicas voltadas à saúde mental das brasileiras.

A conselheira do CFP, Ana Carolina Freire Lopes, ressalta que não há exigência de uma especialização específica para psicólogas e psicólogos que atendem mulheres em situação de violência. Isso não significa, porém, que o atendimento dispense preparação específica.

Segundo o Conselho, a atuação exige formação técnica e ética permanente, especialmente para lidar com sigilo, notificação compulsória, riscos de revitimização, encaminhamento à rede de proteção e articulação com outros serviços.

“Realmente trouxe acolhimento”

No caso de Menedy, depois de conseguir superar as dificuldades para entrar no programa, o atendimento passou a ser avaliado de forma positiva.

“Eu gosto muito do atendimento da profissional. Ela faz análises muito boas e traz questionamentos e pensamentos coerentes. Realmente trouxe acolhimento para minhas dores e dificuldades”, afirma.

Ela, no entanto, considera que o número de sessões é limitado diante da trajetória relatada por ela. Segundo seu relato, o acompanhamento prevê dez sessões.

Menedy considera esse período insuficiente diante de quase duas décadas vivendo, segundo ela, em um relacionamento abusivo marcado por diferentes formas de agressão.

“Depois de quase 20 anos de relacionamento abusivo, com inúmeras agressões, dez sessões é muito pouco. A ajuda psicológica é extremamente importante”, afirma, destacando que há expectativa de renovação das dez sessões após o término dos atendimentos.

A experiência anterior dela com a rede pública também ajuda a explicar por que o acesso ao Acolhe Mais representa uma oportunidade real de acolhimento. Menedy conta que procurou atendimento em um centro de saúde, mas entrou em uma fila e está esperando há mais de dois anos.

O teleatendimento, por outro lado, trouxe uma vantagem concreta para sua rotina: a possibilidade de organizar o horário sem precisar se deslocar.

“Com a rotina das crianças, consigo me organizar para ter um momento de autocuidado”, diz.

O que acontece depois das dez sessões?

A experiência de Menedy reúne duas faces do Acolhe Mais: de um lado, a dificuldade de transformar uma política digital em acesso efetivo; de outro, o potencial de um atendimento que, quando alcançado, pode se adaptar à rotina de mulheres que enfrentam dificuldades para se deslocar até um serviço de saúde.

A continuidade do cuidado também é apontada como uma questão central pelas especialistas. A professora Ana Flávia avalia que o atendimento virtual pode funcionar como uma primeira avaliação e contribuir para a construção de um plano de cuidado articulado à rede pública.

A avaliação da ABP acrescenta outro elemento a essa discussão: o atendimento remoto precisa ser capaz de identificar situações que ultrapassam o escopo de uma consulta psicológica virtual e encaminhá-las adequadamente para outros pontos da rede.

Esse fortalecimento passa também pela capacitação dos profissionais da atenção primária para reconhecer sinais de violência mesmo quando a mulher chega ao serviço com queixas aparentemente inespecíficas, defende a professora Nádia.

Ela defende ainda que as próprias mulheres sobreviventes participem da construção e da avaliação das políticas públicas.

“Essa resposta, a gente tem que compartilhar a pergunta com as mulheres sobreviventes”, afirma.

A participação social prevista no SUS pode ajudar a construir políticas mais próximas das necessidades reais da população, defende.

A questão, portanto, não termina quando a mulher consegue clicar no botão de agendamento.

Para quem vive ou viveu violência, conseguir chegar ao atendimento é apenas o primeiro passo. O desafio seguinte é garantir que esse cuidado tenha continuidade, qualidade, segurança e conexão com uma rede capaz de responder às diferentes necessidades dessa mulher.

A experiência de Menedy mostra esse percurso: entre a dificuldade de entrar, a espera por uma vaga e a possibilidade de finalmente encontrar um espaço de escuta.

Como resume a professora Nádia, o teleatendimento pode abrir uma nova possibilidade de acesso, mas não deve ser a única: “É um caminho extremamente interessante que vai atender uma grande parte da população, mas não pode ser o único caminho, tem que ser um conjunto de caminhos.”

O ElasNaLei.com.br procurou o Governo Federal para esclarecer aspectos relacionados ao funcionamento do Acolhe Mais.

Inicialmente, a reportagem encaminhou perguntas ao Ministério da Saúde, responsável pelo programa, sobre a capacidade anunciada de 100 mil atendimentos mensais, número de vagas, eventual fila de espera, distribuição regional, quantidade de profissionais, critérios de atendimento, protocolos para situações de risco, integração com a rede de proteção, medidas de segurança e privacidade e perfil das mulheres atendidas.

Também foram solicitadas informações sobre o orçamento do programa, os indicadores utilizados para avaliar seus resultados e a previsão de expansão.

O Ministério das Mulheres também recebeu perguntas da reportagem. A Pasta respondeu orientando a encaminhar todas as questões ao Ministério da Saúde para manifestação.

Entre os questionamentos enviados ao Ministério das Mulheres estavam a existência de integração entre o Ligue 180 e o Acolhe Mais, dados sobre subnotificação da violência psicológica, capacidade da rede de proteção, eventual taxa de resolutividade dos encaminhamentos feitos pelo Ligue 180, além de informações sobre raça, renda, escolaridade, deficiência e ruralidade das usuárias.

A reportagem também solicitou ao Ministério da Saúde a indicação de uma psicóloga do programa para entrevista.

Até o fechamento desta reportagem, os ministérios não haviam respondido aos questionamentos enviados pelo ElasNaLei.com.br. As respostas serão incorporadas à cobertura caso sejam encaminhadas.

Elas na Lei

Hub independente de notícias e análises focado na fiscalização dos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo para assegurar direitos das mulheres, mães e seus filhos.

Contato

contato@elasnalei.com.br

Canal do Whatsapp