Brasília, DF · Atualizado em 17 de julho de 2026 * siga nosso canal no whatsapp
Fora de Campo: O Mito do "Herói" e a Realidade dos Jogadores de Futebol
Como a cultura da idolatria esportiva mascara a violência de gênero e a impunidade no futebol. Fotos de Agência Brasil (Neymar), Clauber Cleber (Daniel Alves), Plus Qatar (Gerard Piqué), El Gráfico (Garrincha), Fernando Souza (Bruno Fernandes), Raimundo Rosa/A Tribuna (Pelé), Reto Stauffer (Robinho), Carlos Moura/Agência Senado (Romário), Ricardo Stuckert (Marta). Imagem criada com Gemini.
SOCIEDADE
6/27/20268 min read


O futebol brasileiro e mundial tem o poder de transformar homens comuns em ídolos quase intocáveis. Nos gramados, eles são aplaudidos por milhões, ganham estátuas e movimentam cifras astronômicas. No entanto, quando o apito final soa e as luzes do estádio se apagam, episódios amplamente documentados envolvendo nomes do futebol revelam tensões entre essa idolatria e os direitos, a dignidade e a vida das mulheres.
Historicamente, o talento com a bola nos pés tem servido, segundo análises de pesquisadores e organizações de defesa de direitos, como uma espécie de salvo-conduto social para condutas que, em qualquer outro contexto profissional, gerariam reprovação imediata.
O Fenômeno Estatístico: Quando o Calendário do Futebol Liga o Alerta
A conexão entre a cultura do futebol e a violência de gênero não se restringe a condutas individuais de atletas; ela aparece também em levantamentos estatísticos sobre o ambiente doméstico durante períodos de partidas.
De acordo com o estudo "Violência Contra Mulheres e Futebol", realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Avon, os registros de ameaças contra mulheres sobem 23,7% em dias de jogos, segundo a pesquisa. Quando o assunto é lesão corporal dolosa, o levantamento aponta aumento de 20,8%, índice que sobe para 25,9% quando o time joga como mandante — fatores que o estudo associa ao consumo de álcool e à exaltação de uma masculinidade agressiva.
Esse cenário se intensifica durante a Copa do Mundo, segundo estudos internacionais. Pesquisas conduzidas por instituições como a Universidade de Warwick, no Reino Unido, associam grandes eventos esportivos a picos de abuso doméstico em dias de jogos decisivos, sobretudo quando há consumo elevado de álcool.
A Desvalorização Estrutural: O Abismo entre Marta e o Futebol Masculino
A disparidade de gênero no futebol também se manifesta na valorização econômica do esporte. Um exemplo frequentemente citado é o de Marta Vieira da Silva, eleita seis vezes melhor jogadora do mundo pela FIFA e maior artilheira da história das Copas do Mundo — recorde que supera, em número de gols, os de jogadores homens na competição.
Mesmo com essas credenciais, é de conhecimento público que os contratos publicitários e salários do futebol feminino, mesmo no topo da modalidade, permanecem muito distantes dos valores movimentados por atletas homens — incluindo aqueles que nunca alcançaram patamar competitivo comparável. Esse abismo é amplamente discutido por especialistas em economia do esporte como reflexo de uma estrutura de mercado historicamente voltada à valorização do futebol masculino.
A Hostilidade nos Estádios: A Mulher como Alvo de Escárnio
A violência de gênero no futebol também se expressa de forma verbal e coletiva nas arquibancadas. Um episódio que ganhou repercussão recente envolveu cânticos ofensivos dirigidos à influenciadora Virgínia Fonseca durante uma partida de futebol profissional, segundo registrado pela imprensa esportiva na ocasião.
Mesmo sem vínculo esportivo direto com a partida, a imagem de Virgínia foi associada por torcedores rivais a uma provocação dirigida a seu companheiro. Episódios desse tipo são citados por pesquisadores e movimentos de defesa de direitos das mulheres como exemplo de como a presença feminina — mesmo indireta — pode se tornar alvo de hostilidade nos estádios.
A Linha Histórica: Da Rejeição ao Abuso
Essa tensão entre idolatria e responsabilização não é recente. O caso de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, é frequentemente citado nesse debate. Sandra Regina Machado, falecida em 2006, travou por anos uma batalha judicial pelo reconhecimento de sua paternidade. Segundo registros amplamente divulgados na época, o reconhecimento ocorreu de forma compulsória, em primeira instância, em 1996, após exame de DNA — ou seja, não por iniciativa voluntária de Pelé, que continuou contestando o vínculo por via judicial nos anos seguintes. Pelé só reconheceu Sandra formalmente em seu testamento, divulgado após sua morte em 2022 — quando ela já havia falecido há mais de 15 anos.
Já o caso de Mané Garrincha ilustra um cenário de violência doméstica. Segundo relatos da própria Elza Soares, registrados em sua biografia autorizada (Zeca Camargo, 2018) e em entrevistas ao longo de décadas, o agravamento do alcoolismo do jogador após a aposentadoria dos campos coincidiu com episódios de agressão física contra a cantora — fatos que ela mesma tornou públicos, inclusive na composição da canção "Maria da Vila Matilde".
A Barbárie e a Violência Extrema
Nos casos mais extremos, o caso do ex-goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza é um dos mais emblemáticos do país. Bruno foi condenado pela Justiça de Minas Gerais — em decisão mantida pelo Tribunal de Justiça de MG e pelo Superior Tribunal de Justiça — pelo homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver de Eliza Samudio, mãe de seu filho, crime que chocou o país em 2010. A pena, atualmente fixada em 20 anos e nove meses (após a prescrição parcial de um dos crimes), está em fase de execução, com o ex-goleiro tendo passado por progressões e regressões de regime ao longo dos anos.
O que mais gerou indignação pública, segundo organizações de defesa dos direitos das mulheres, não foi apenas a gravidade do crime, mas as tentativas, por parte de clubes, de reinserir o ex-atleta no futebol profissional durante períodos de progressão de regime — episódios amplamente noticiados que reabriram o debate sobre os limites entre reabilitação penal e o tratamento dado a condenados por feminicídio no meio esportivo.
O Cenário Internacional e os Processos por Violência Sexual
O problema não é exclusividade brasileira. Casos recentes em ligas internacionais mostram como decisões judiciais sobre esse tipo de crime nem sempre seguem trajetória linear.
O ex-jogador Robinho foi condenado pela Justiça italiana, com trânsito em julgado, a nove anos de prisão pelo crime de estupro coletivo, tendo a sentença sido homologada pelo Superior Tribunal de Justiça brasileiro e a transferência da execução da pena para o Brasil confirmada pelo Supremo Tribunal Federal. Ele cumpre atualmente a pena em regime fechado.
Já o caso do ex-jogador Daniel Alves ilustra a complexidade desses processos: condenado em 2024 pela Justiça espanhola a quatro anos e seis meses de prisão por agressão sexual em uma boate em Barcelona, ele teve a condenação anulada por unanimidade pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha em março de 2025, com os desembargadores apontando "lacunas, imprecisões, inconsistências e contradições" na sentença original e determinando sua absolvição. O caso permanece como ponto de debate sobre os desafios probatórios em crimes sexuais, mas, juridicamente, Daniel Alves está hoje absolvido na Espanha.
Na Inglaterra, é frequente que jogadores da Premier League apareçam em notícias envolvendo investigações por violência doméstica ou agressão sexual — processos que, segundo reportagens especializadas, por vezes terminam em acordos extrajudiciais cujos termos não chegam ao conhecimento público.
A Insistência na Normalização: O Caso Cuca
O caso do técnico Cuca (Alexi Stival) ilustra a resistência do meio futebolístico em lidar com o passado de seus profissionais. Em 1989, a Justiça suíça condenou Cuca e outros dois ex-jogadores do Grêmio a 15 meses de prisão e multa, por fatos ocorridos em 1987 envolvendo uma menor de 13 anos — episódio que ficou conhecido como "Escândalo de Berna". Um quarto envolvido foi condenado como cúmplice. Segundo registros do processo, a defesa da época conseguiu alterar a tipificação inicial de estupro para uma figura penal distinta no julgamento.
Em janeiro de 2024, o Tribunal Regional de Berna-Mittelland anulou essa condenação, após a defesa demonstrar que Cuca não teve representação legal no julgamento original — falha que, segundo as próprias autoridades suíças, impediu um novo julgamento porque o crime já estava prescrito. É importante destacar, com precisão jurídica: especialistas ouvidos pela imprensa, incluindo advogados consultados na época, esclareceram que essa anulação não representa absolvição nem julgamento de mérito — apenas o reconhecimento de um vício processual, sem que se tenha decidido sobre culpa ou inocência. A vítima, Sandra Pfäffli, faleceu em 2002.
A contratação de Cuca pelo Corinthians em 2023 gerou protestos de torcedoras e grupos de direitos humanos, episódio que expôs o debate público sobre os limites entre competência técnica e responsabilidade social na manutenção de profissionais com esse histórico em posições de liderança.
A Era das Redes: Episódios de Exposição Midiática
A era digital trouxe maior visibilidade a episódios de conduta pessoal de atletas, ainda que nem sempre com desdobramentos jurídicos.
Internacionalmente, o fim do relacionamento entre o ex-jogador Gerard Piqué e a cantora Shakira teve grande repercussão midiática, com alegações de infidelidade tornadas públicas pela artista, inclusive em composições musicais posteriores.
No Brasil, o atacante Neymar publicou, em 2023, uma mensagem de desculpas em suas redes sociais à então companheira Bruna Biancardi, grávida na ocasião, após repercussão pública sobre uma alegada infidelidade — fato relatado amplamente pela imprensa à época.
O Abandono Material e a Batalha pela Pensão
A questão da responsabilidade financeira com filhos também aparece com frequência na cobertura jornalística sobre atletas de alta renda.
O ex-atacante Romário foi detido administrativamente em 2009 por dívida de pensão alimentícia, segundo noticiado na época. Anos depois, o ex-lateral Roberto Carlos teve prisão decretada pela Justiça do Rio de Janeiro por atraso no pagamento de pensão a filhos que residiam no exterior, conforme registrado pela imprensa.
Mais recentemente, o zagueiro Éder Militão protagonizou disputa judicial amplamente noticiada com a mãe de sua filha, envolvendo discussões públicas sobre valores de pensão — caso que, segundo comentaristas jurídicos, ilustra como disputas financeiras podem se tornar instrumento de desgaste emocional nesse tipo de processo.
O Papel da Crítica e do Direito
Como portal dedicado ao debate jurídico e aos direitos das mulheres, o Elas na Lei ressalta: talento técnico não confere imunidade moral, civil ou penal — e tampouco substitui o rigor necessário para relatar com precisão o estágio em que cada processo judicial efetivamente se encontra.
É fundamental dissociar a admiração pelas conquistas esportivas da conivência com condutas que violam a dignidade humana — e, ao mesmo tempo, distinguir com cuidado entre condenação, absolvição e anulação processual, para que o debate público sobre esses temas seja feito com responsabilidade. O debate, amparado pela liberdade de expressão e de imprensa, cumpre o papel de retirar esses comportamentos da sombra da impunidade onde, de fato, ela persiste — lembrando que, antes de serem ídolos, atletas são cidadãos sujeitos às leis e ao respeito mútuo, com os mesmos direitos a um processo justo que qualquer outra pessoa.
Leia mais:
Misoginia não é "opinião"
Resolução 258 do Conanda foi derrubada: o que muda para crianças vítimas de violência sexual
O que o pedido de socorro de Vitória MineBlox precisa ensinar às instituições
Violência Vivária é reconhecida por lei
25 de Março: O Novo Marco da Prevenção à Violência Vicária no Brasil
R$ 5 bilhões para combater a violência contra a mulher no Brasil
O Alerta da Imprensa e a Luta por Justiça Pós-Separação
Ministra das Mulheres aponta falhas da Justiça e em delegacias para proteger mulheres e meninas
Entre os novos avanços e as lacunas na proteção real
Raquel Dodge e o desmonte do "Arenque Vermelho" Jurídico: quando o acusado se faz de vítima
Relatório da Câmara dos Deputados revela faces sutis da misoginia contra mães no sistema de justiça
Elas na Lei
Hub independente de notícias e análises focado na fiscalização dos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo para assegurar direitos das mulheres, mães e seus filhos.
